quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Tatuagem

As marcas que ficaram doutra época
não doem.
São fortes, escuras, sarcásticas,
mas não doem.
E a beleza dessas marcas no espírito do que sofreu
o faz desejar que o passado tenha mesmo sido esse
(se é que faz alguma diferença desejar o passado).

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Metamorfose

Continuar sendo a mesma pessoa.
Porque é só isso que faz a gente mudar de verdade.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

A roupa nova do rei

A sinestesia não esmoreceu.
Antes branca, agora luz.
Não, o rei não está nu!

domingo, 16 de setembro de 2007

Paranóia cromática

Hipnotizada, a língua não sentiu o doce.

Nem o amargo ou o apetitoso.

Nem a dor nem a aspereza.

Só viu cores.

Eram tantas e tão vivas que,

desde que despertou da ilusão,

só quer saber de aula de pintura.

domingo, 9 de setembro de 2007

Serpente

O toque parecia macio,
só intuitivamente tomado por rachaduras.
Não creio que eu deva concertá-las.
Mas olhos e dedos enfeitiçados
insistem em devorar e aspiram
todas as fissuras, mesmo sem vê-las.
Não querem possuir nada,
bastam breves momentos de sedução.
Mas são fendas ariscas,
têm medo de se deixarem preencher.
E talvez tenham razão,
pois olhares curiosos e dedos flautistas
poderiam encantar a serpente.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Sonho?

As cores tilintam, todas e tantas,
reconstruindo a forma e a sombra.
Deixam sair a voz - o mesmo timbre, a mesma música.
Só faltou o cheiro para o desejo ser real.

Mas nem na realidade o cheiro se deixa memorizar.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Desejos

prazer em ter o controle sobre si mesmo

o respirar, o sorrir, o sofrer (principalmente, não inclusive)

ilusão divertida de controlar o querer dos outros

e frustração aliviadora de perceber que, no máximo, é sorte

terça-feira, 28 de agosto de 2007

O ser e o nada

tateio as entrelinhas.
um sussurro ou uma silhueta,
não sei bem.
o corpo inteiro palpita,
tem os sentidos em alerta.
mas não é nenhum deles que
capta a descoberta tão desconcertante
(mais desconcertante que exisitir?):

o nada.

Reaproximação

Olha, sente, percebe que sentiu
Conversa, sorri, dá atenção
Deseja.

Quase confessa
E, diante da provocação,
Diz o contrário do que sente
(jamais admitiria estar sob feitiço!)

Mas tudo bem,
é ouvido pelo avesso.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

OBS.

A minha capacidade de sentir é
inversamente proporcional ao tempo
que eu dedico ao trabalho.

E não tentem me convencer de que não é assim que as coisas funcionam.